O aumento nos preços da gasolina nos Estados Unidos tem forçado moradores a mudar hábitos e a buscar soluções inusitadas para economizar, desde reduzir deslocamentos até adaptar brinquedos motorizados para ir ao mercado. A escalada do combustível aparece como principal razão para essas alternativas cotidianas.
Em um caso exemplar, Mali Hightower, de 30 anos, da Geórgia, reaproveitou um Power Wheels Barbie Dream Camper de 2018 que encontrou no lixo. Ele instalou um pequeno motor — com capacidade para dois galões de gasolina — e o pistão de uma lavadora de alta pressão, além de um sistema de partida por puxador similar ao de cortadores de grama. Hightower usa o veículo para deslocamentos curtos, usando capacete e um suporte superior para transportar mantimentos. Seu carro principal, um Mercedes‑Benz conversível de 1996, custa cerca de US$ 90 (R$ 450,84) para ser abastecido. “É muito caro”, afirmou.
O cenário mais amplo é apresentado por dados da Associação Automobilística Americana (AAA): em 18 de maio, o preço médio do galão de gasolina comum alcançou US$ 4,52 (R$ 22,64), acima dos cerca de US$ 3 (R$ 15,03) verificados antes do início da guerra no Irã. Um galão americano equivale a aproximadamente 3,8 litros.
O aumento tem levado muita gente a repensar deslocamentos. Uma pesquisa da Ipsos, realizada em 28 de abril e publicada pelo Washington Post e pela ABC News, aponta que 44% dos americanos reduziram o número de viagens de carro. Entre medidas adotadas estão maior uso do transporte público e a preferência por atividades mais próximas de casa.
Algumas iniciativas empresariais e comunitárias também surgiram como resposta. Renee Tocci, diretora executiva do Camp Farley, em Massachusetts, decidiu promover acampamentos noturnos para diminuir os custos de pais que percorrem longas distâncias no verão, após pagar quase US$ 40 (R$ 200,37) a mais que o habitual para encher seu Buick Enclave. Ela passou a mencionar o impacto do combustível em comunicações de marketing para atrair participantes. “Isso é hilário”, lembrou ter ouvido de um colega, e decidiu compartilhar a ideia nas redes sociais: “Aqui vai uma dica de economia sobre a qual ninguém fala: mande seus filhos para um acampamento noturno”.
Dafne Flores, criadora de conteúdo de 28 anos, que mora em Silverdale (Washington), deixou o carro estacionado em Glendale durante uma estadia de dois meses em Los Angeles e passou a usar ônibus. Abastecer seu Toyota Highlander agora sai por pelo menos US$ 95 (R$ 475,88), e ela evita trajetos acima de oito quilômetros e postos próximos a rodovias, onde já encontrou preços próximos a US$ 9 (R$ 45,08) por galão. O transporte coletivo tem permitido, segundo ela, trabalhar durante o percurso e economizar com estacionamento.
No Maine, o sistema de ônibus de Bangor registrou aumento de 21% no número de passageiros desde janeiro, com maior elevação nos horários de pico, segundo Laurie Linscott, administradora de trânsito local. “Comecei a observar os passageiros e a tentar identificar algum perfil demográfico. Eram pessoas de todos os estilos de vida”, disse ela.
Houve também ações pontuais, como uma promoção na Califórnia em que a Visit Las Vegas ofereceu até US$ 100 (R$ 500,93) em combustível aos primeiros 100 clientes em um posto, e igrejas que distribuem cartões de gasolina: a CityPoint Community Church, em Chicago, planeja repassar US$ 5.000 (R$ 25.046,50) em cartões de US$ 25 (R$ 125,23), e o pastor Demetrius Davis afirmou que mais de 70 cartões já foram entregues após os cultos do Dia das Mães. “O transporte não é um luxo para muitas famílias. É uma questão de sobrevivência”, afirmou.
Embora o custo elevado ainda não tenha provocado um salto nas vendas de veículos elétricos, donos desses carros relatam alívio nas despesas com deslocamento. John Stringer, presidente do grupo Tesla Owners of Silicon Valley, publicou um vídeo no TikTok mostrando preços altos em um posto e brincou ao virar a câmera para um Cybertruck, observando que, para ele, a alta do combustível é menos preocupante. “Não sei qual foi a última vez que olhei os preços da gasolina, exceto para esse vídeo”, disse.
O impacto da alta de combustíveis segue influenciando decisões diárias, incentivando desde medidas de economia individual até iniciativas comunitárias e comerciais que tentam mitigar os efeitos sobre famílias e trabalhadores.
Com informações de G1





