O aumento de emergências por colisões de motos lota prontos-socorros e mobiliza equipes e leitos. Pacientes que aguardam procedimentos eletivos têm operações postergadas e permanecem internados por mais tempo.
O crescente número de acidentes envolvendo motocicletas no Rio de Janeiro (RJ) se tornou um problema que ultrapassa as emergências, afetando diretamente pacientes que aguardam por cirurgias eletivas. Com o aumento das urgências, equipes médicas e leitos estão sendo realocados, resultando no adiamento de procedimentos cirúrgicos programados.
Segundo o secretário municipal de Saúde do Rio, a situação é crítica: “Aumenta o número de emergências, tenho que reduzir as eletivas, deixando o paciente internado por mais tempo”. Essa situação reflete um cenário alarmante: em 2024, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) deixou de realizar 1.450 cirurgias eletivas de alta complexidade devido a transferências de emergência, com um em cada cinco pacientes recebidos apresentando lesões graves provenientes de acidentes de moto.
Ademais, cada operação de urgência desse tipo retarda, em média, cinco pacientes na fila de cirurgias programadas. Entre janeiro e junho de 2026, o Corpo de Bombeiros registrou mais de 25 mil atendimentos a vítimas de acidentes com motos no estado, o que equivale a uma média de 144 ocorrências diárias, ou uma a cada dez minutos. Em 2025, o número de mortes de motociclistas ultrapassou 600, representando um aumento de 29% em relação ao ano anterior.
Nos hospitais, a saturação é evidente. No Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo (RJ), aproximadamente 70% das cerca de 500 cirurgias ortopédicas mensais são decorrentes de acidentes de moto, conforme relatou o coordenador de ortopedia da unidade. As vítimas são predominantemente homens entre 20 e 29 anos, que necessitam de meses de recuperação. No Hospital Municipal Lourenço Jorge, cerca de 80% das cirurgias relacionadas a acidentes de trânsito envolvem motociclistas.
Esse quadro não é exclusivo do Rio de Janeiro. Em São Paulo, a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia estima que 40% dos leitos de ortopedia estão ocupados por vítimas de acidentes motociclísticos. Na Bahia, as internações por esses casos custaram cerca de R$ 148,6 milhões ao sistema de saúde estadual em 2025. No Amazonas, a Secretaria de Saúde revelou que 70% das cirurgias ortopédicas em uma de suas unidades têm a mesma origem.
A crescente frota de motocicletas, que saltou de 2,7 milhões em 1998 para mais de 34 milhões em 2024, está diretamente associada ao aumento das ocorrências. Atualmente, as motos representam quase 40% das mortes no trânsito brasileiro e cerca de 60% das internações por acidentes de transporte. O Ipea relaciona esse fenômeno à popularização dos serviços de mototáxi e delivery, que propiciam uma cultura de pressa entre os condutores, em busca de compensação financeira.
O tenente-coronel Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros, também aponta para a vulnerabilidade dos motociclistas e a pressão para cumprir prazos, especialmente entre entregadores. Fatores como excesso de velocidade, desrespeito a sinais vermelhos e distrações causadas por celulares são considerados os principais riscos. Em uma declaração contundente, Marcelo Pessoa, coordenador do Centro de Trauma do Alberto Torres, destacou: “A gente não enxuga mais gelo. A gente enxuga sangue”, enfatizando a necessidade de uma maior educação no trânsito e de uma fiscalização mais rigorosa.






