Em 3 de setembro de 1967, às 5h, a Suécia mudou para sempre seu trânsito. Carros e ônibus pararam simultaneamente para trocar de faixa, encerrando séculos de direção pela esquerda.
No dia 3 de setembro de 1967, às 4h50 da madrugada, a Suécia vivenciou um evento marcante e singular na sua história automotiva: o Dia H. Neste momento, carros, ônibus e bicicletas pararam em todo o país, aguardando um sinal para realizar uma mudança significativa nas regras de trânsito. Às 5h, após uma contagem regressiva, a nação inteira foi instruída a trocar de lado na estrada, passando a dirigir pela direita, um movimento que encerrava séculos de tradição de direção pela esquerda.
A decisão de mudar a mão de direção não foi simples e nasceu de uma situação paradoxal. Desde 1916, os suecos dirigiam pela esquerda, mas 90% dos veículos no país possuíam o volante à esquerda, uma herança dos automóveis americanos, como Ford e Chevrolet, que eram projetados para a mão inversa. Isso resultava em dificuldades nas estradas, especialmente ao realizar ultrapassagens, onde a visibilidade da pista contrária era comprometida, aumentando a incidência de colisões frontais. Além disso, todos os países vizinhos, como Noruega, Finlândia e Dinamarca, já adotavam a direção pela direita, o que complicava o tráfego nas fronteiras.
Apesar da lógica por trás da mudança, a população sueca estava relutante. Um plebiscito realizado em 1955 demonstrou que 83% dos suecos preferiam continuar dirigindo pela esquerda. No entanto, o governo liderado por Tage Erlander decidiu seguir em frente com a mudança, aprovada pelo Parlamento em 1963 e programada para 1967. A crescente frota de veículos, que aumentou de 500 mil para 1,5 milhão em poucos anos, tornava a situação ainda mais urgente.
Para preparar a população e gerar aceitação, foi criada uma extensa campanha de conscientização que durou quatro anos. O logotipo do Dia H, um ‘H’ estilizado, foi amplamente divulgado em outdoors, adesivos e até em luvas distribuídas aos motoristas. Aproximadamente 360 mil placas de trânsito foram substituídas, e milhares de ônibus, que anteriormente possuíam portas apenas do lado esquerdo, ganharam novas portas à direita, tudo isso com um custo estimado em 628 milhões de coroas da época, equivalente a cerca de 316 milhões de dólares atuais.
A atmosfera no Dia H foi de festa e celebração. Desde a 1h da manhã, veículos não essenciais foram proibidos de circular, permitindo que multidões se reunissem para aguardar a grande mudança. Com fogos de artifício e música, a nação estava pronta para a nova fase. Ao soar da buzina, as placas cobertas foram reveladas e o tráfego recomeçou, agora dirigido pela direita.
O impacto inicial foi surpreendente. Na segunda-feira seguinte, o primeiro dia útil após a mudança, o país registrou pouco mais de cem acidentes leves, número abaixo da média habitual. A cautela dos motoristas foi evidente, resultando em uma queda nas fatalidades no trânsito. Contudo, essa prudência era temporária, e, por volta de 1969, os índices de acidentes voltaram aos níveis anteriores.
O Dia H permanece na memória dos suecos como um dos eventos mais significativos de 1967. O consultor de trânsito Peter Kronborg, que tinha apenas 10 anos na época, recorda-se de pedalar pela primeira vez do lado direito da rua, sob a atenção da mídia internacional. O Dia H simboliza não apenas uma mudança nas regras de trânsito, mas uma transformação cultural na Suécia.







