O Brasil repete o ciclo de investir bilhões e colher os mesmos resultados nas estradas. Buracos e trincas escondem falhas estruturais que o dinheiro público não consegue resolver.
Buracos, trincas e afundamentos são frequentemente encarados como os principais problemas das rodovias brasileiras. Contudo, para a engenharia rodoviária, esses danos representam apenas os sintomas de falhas estruturais mais profundas. Confundir a superfície com a raiz do problema resulta em gastos desnecessários, e o Brasil destina bilhões anualmente para remediar as mesmas falhas. Em 2025, o DNIT investiu cerca de R$ 8 bilhões na manutenção das rodovias federais, mas, ao final do ano, 62% da malha rodoviária avaliada pela Pesquisa CNT ainda se encontrava em estado regular, ruim ou péssimo.
O foco constante no recapeamento é um dos maiores desperdícios. Quando o afundamento da pista é originado por colapsos na base ou sub-base, aplicar uma nova camada asfáltica apenas resolve o problema visualmente. “Se a deformação superficial for causada por um colapso na base ou na sub-base, realizar apenas um recapeamento é jogar dinheiro fora”, afirma Bernardo Oliveira, gestor de unidade de negócio da Construtora De Amorim. Ele ressalta que, sem corrigir as causas estruturais, a pista não suportará o peso do tráfego e, inevitavelmente, precisará ser completamente removida no futuro.
A negligência em abordar as raízes do problema gera um custo elevado. A CNT estima que a má qualidade do pavimento eleva em média 31,2% os custos operacionais do transporte no Brasil — um aumento que chega a 35,8% nas rodovias sob gestão pública. Apenas em desperdício de diesel devido às péssimas condições das pistas, os valores estimados são de R$ 7,2 bilhões por ano, o que equivale a 1,2 bilhão de litros. Para restaurar toda a malha rodoviária do país, a entidade calcula que seriam necessários R$ 101 bilhões.
No entanto, os valores investidos ficam aquém do necessário. Uma auditoria do TCU apontou que o DNIT necessitaria de R$ 17 bilhões somente em 2025 — sendo R$ 12,6 bilhões apenas para a manutenção do pavimento —, mas recebeu cerca da metade desse montante. Essa defasagem leva as estradas a um estágio ainda mais crítico: a reconstrução total.
Técnicos do setor afirmam que reverter esse ciclo não depende apenas de tecnologia avançada, mas sim de mudanças simples nos métodos de trabalho. A primeira recomendação é realizar um diagnóstico antes da pavimentação, investigando as camadas inferiores com ensaios e equipamentos como o radar de penetração no solo, ao invés de apenas tratar a superfície. Em segundo lugar, é fundamental cuidar da drenagem, já que a água que se infiltra satura a base e acelera as trincas e afundamentos; mantê-la longe da estrutura é uma das intervenções mais baratas e eficazes. Por fim, a mudança de um reparo de emergência para uma manutenção preventiva, como selar trincas e aplicar tratamentos superficiais de forma oportuna, pode adiar problemas maiores no futuro.





