As fabricantes reduziram o desenvolvimento de veículos para 18-24 meses, gerando preocupação regulatória. O regulador lançou uma campanha de um ano com auditorias, inspeções sem aviso e maior rigor em qualidade e segurança.
O encurtamento dos ciclos de desenvolvimento de veículos na China colocou autoridades regulatórias em alerta e motivou uma ofensiva por maior rigor em qualidade e segurança. Tradicionalmente, desenvolver um carro novo leva entre três e cinco anos; marcas chinesas reduziram esse prazo para cerca de dois anos e agora perseguem a meta de 18 meses, ritmo que se tornou vantagem competitiva e preocupação das autoridades.
Como resposta, o regulador chinês lançou uma campanha de um ano voltada para reforçar processos de qualidade, com auditorias a fabricantes, inspeções sem aviso prévio e maior escrutínio sobre a validação de novas tecnologias. Entre as propostas em estudo está dobrar a distância mínima exigida nos testes de durabilidade dos veículos de nova energia — categoria que abrange elétricos, híbridos plug-in e elétricos com extensor de autonomia — de 15.000 para 30.000 quilômetros. A mudança ainda não está em vigor e igualaria esses modelos aos requisitos aplicados aos carros a combustão.
O país também apertou regras em outras frentes: proibiu maçanetas retráteis e os chamados meios-volantes, o formato retangular popularizado pela Tesla, que serão banidos dos carros novos a partir de 2027; e estabeleceu exigências para sistemas avançados de condução assistida, previstas para entrar em vigor no ano que vem. O aperto regulatório ocorre em meio ao maior recall da história do país, que envolveu mais de 4,27 milhões de elétricos de nove fabricantes, com a maioria da Tesla, por falhas nos mecanismos de abertura de emergência das portas.
Fabricantes reconhecem o risco operacional associado ao encurtamento dos prazos. Geely, GWM e Chery afirmaram que cronogramas mais curtos transformam, na prática, os clientes em cobaias para testar durabilidade e segurança em condições reais. Em relação à necessidade de testes extensivos, a posição de executivos dessas empresas ressalta que determinados ensaios não podem ser acelerados, pois os veículos precisam suportar variações de clima, pavimentos e hábitos de condução.
“Os carros não são bens de consumo rápido”
Ao mesmo tempo, gestores apontam que desacelerar é complexo quando todas as empresas disputam liderança, e que para fabricantes menores o custo de testes físicos adicionais é proporcionalmente mais alto, justamente num contexto em que velocidade tem sido fator de sobrevivência no mercado. Essas medidas regulatórias atingem marcas que operam internacionalmente, inclusive no Brasil.
A pressão por ciclos mais curtos não é exclusiva da China. Montadoras europeias e japonesas também buscam acelerar desenvolvimento: a Volkswagen desenvolveu o SUV elétrico ID. UNYX 08 em 24 meses com apoio de inteligência artificial e realidade virtual; o Grupo Renault levou 21 meses para o novo Twingo; e a Toyota passou a desenvolver plataformas e vários modelos em paralelo para reduzir prazos. A inteligência artificial é apontada como ferramenta central para substituir verificações manuais por simulação e validação digital, reduzindo erros de projeto.
Analistas alertam, porém, que simulação não substitui integralmente ensaios físicos. Para Yala Zhang, diretor-geral da consultoria Automotive Foresight, parâmetros básicos como testes de rodagem de 30.000 ou 50.000 quilômetros não podem nem devem ser substituídos por validação exclusivamente digital.





