A escalada do conflito no Irã e a importância estratégica do Estreito de Ormuz fizeram o preço do petróleo disparar no mercado internacional, beneficiando financeiramente a Petrobras, mas ao mesmo tempo gerando desafios para a política de preços e aumentando a dependência de diesel importado. O barril mais caro valoriza as exportações da estatal, reforçando o caixa, mas acende o debate sobre como o aumento será repassado ao consumidor brasileiro e agrava riscos de abastecimento.
De acordo com João Abdouni, analista da Levante Inside Corp, a alta nos preços internacionais tende a elevar as margens de lucro da Petrobras no segmento de exportação. “Quando o barril sobe, as vendas externas da empresa geram mais receita”, explica. Em ciclos anteriores em que o Brent chegou a US$ 100, a estatal já reportou fluxo de caixa robusto, com distribuição de R$ 215 bilhões em proventos, conforme destaca Vitor Sousa, da Genial Investimentos.
Além disso, Rafael Figueiredo e Maria Irene, da XP Investimentos, ressaltam que empresas petrolíferas costumam se proteger de quedas generalizadas no mercado de ações por causa da correlação direta com a commodity. “Em dias de sell-off, a Petrobras se destaca positivamente, junto com outras petroleiras”, afirmam os analistas.
Revisão da política de preços
Com o petróleo em alta, voltam as discussões sobre o modelo de formação de preços dos combustíveis no Brasil. Desde 2023, a Petrobras deixou de adotar a paridade de importação (PPI) automática e passou a utilizar um sistema de reajustes graduais. Para Marcos Bassani, sócio da Boa Brasil Capital, esse método diminui o impacto imediato das oscilações externas sobre o preço na bomba, mas pode criar uma diferença excessiva entre valores internos e internacionais, pressionando a estatal e as contas públicas.
Riscos da dependência de diesel
Embora o Brasil produza grande volume de petróleo, ainda importa parte significativa do diesel usado internamente. Grandes distorções entre preços domésticos e externos podem desestimular importadores, alerta Bassani, elevando o risco de desabastecimento. Caso o petróleo permaneça caro, a pressão por aumentos mais frequentes tende a crescer, colocando a Petrobras diante de um dilema entre estabilidade de preços e manutenção de margens.

Impactos na inflação e na economia
O aumento do preço do diesel, combustível predominante no transporte de cargas, eleva o custo do frete e se reflete ao longo da cadeia produtiva, contribuindo para a alta da inflação. Jhonny Martins, vice-presidente do SERAC, destaca que a elevação dos combustíveis afeta não apenas o transporte, mas toda a logística e produção de bens e serviços.
No mercado financeiro, níveis de Brent acima de US$ 90 a US$ 100 podem gerar preocupação, segundo Rafael Figueiredo. Nessa faixa, os efeitos inflacionários podem superar os ganhos comerciais, pressionando juros e podendo atrasar cortes nas taxas básicas. Economistas veem riscos de crédito mais caro, menor geração de empregos e crescimento mais lento caso o cenário persista.
Por fim, Vitor Sousa lembra que parte da valorização já pode estar refletida nos preços das ações. “O melhor já passou”, alerta, recomendando cautela na compra de ativos do setor enquanto o petróleo se mantém em patamares elevados.
Com informações de G1





