Estudo da ANP propõe tingir de verde o etanol hidratado e, depois, adicionar gosto amargo para dificultar fraudes. Relatório foi enviado ao MME, CNPE e TCU após intoxicações por metanol.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou um estudo que propõe pintar de verde o etanol hidratado vendido nos postos brasileiros e, em uma segunda etapa, adicionar um gosto amargo ao combustível. A decisão sobre o relatório ocorreu em 2 de setembro e o documento foi encaminhado três dias depois ao Ministério de Minas e Energia — que preside o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) — e ao Tribunal de Contas da União (TCU).
O trabalho responde a diretrizes do CNPE e a recomendações do TCU formuladas após o surto de intoxicações por metanol provocado por bebidas destiladas adulteradas no fim de 2025. A ANP trata a adição de corante verde como solução provisória, que seria aplicada ainda nas usinas produtoras para facilitar a identificação visual do combustível em investigações de desvio rumo à fabricação clandestina de bebidas alcoólicas.
A exigência para colorir o etanol depende da revisão da Resolução ANP nº 907, de 2022. Essa revisão deverá passar por análise de impacto regulatório, consulta e audiência públicas e votação pela diretoria colegiada da agência. A previsão de implementação da etapa do corante é 2027, com um período de transição previsto para usinas, distribuidoras e demais agentes do setor.
Como solução definitiva, o estudo aponta a adição obrigatória de benzoato de denatônio, composto de sabor extremamente amargo já utilizado em produtos de limpeza e higiene para evitar ingestão acidental. Segundo a avaliação da ANP, o sabor amargo poderia revelar a fraude ao consumidor no primeiro contato com a bebida adulterada.
Para a fase do benzoato de denatônio não há prazo definido. A ANP condicionou a eventual obrigatoriedade a testes técnicos específicos: ensaios mecânicos e de emissões terão de comprovar que o aditivo não compromete o funcionamento dos veículos, a qualidade do produto nem o controle de poluentes. A agência destacou a ausência de precedentes do uso do composto em combustível destinado a motores, o que reforça a necessidade de avaliações técnicas.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirmou em nota não dispor de base técnica para avaliar o impacto da substância nos sistemas de alimentação e de escape dos motores a combustão, por não haver histórico representativo de aplicação do aditivo em etanol combustível. A entidade defendeu a criação de um programa de validação com ensaios de durabilidade e de emissões e pediu que tanto o desnaturante quanto o corante sejam isentos de metais, para evitar contaminação do catalisador.
Antes de concluir o estudo, a ANP ouviu produtores de etanol, distribuidoras, fornecedores de corantes, empresas de inspeção de qualidade, representantes da indústria automobilística e do setor de cachaça, além de realizar testes físico-químicos em seu Centro de Pesquisas e Análises Tecnológicas. As próximas etapas administrativas envolverão a análise de impacto regulatório e consultas públicas, que definirão cronogramas detalhados e requisitos técnicos para implementação tanto do corante quanto do aditivo amargo.





