Desde 2009, as mortes de pedestres nos Estados Unidos aumentaram 75%, uma estatística alarmante que não é mera coincidência, mas sim uma consequência direta da evolução das dimensões dos veículos. Um levantamento do The New York Times, em parceria com o Insurance Institute for Highway Safety (IIHS), analisou dados inovadores sobre o tamanho dos automóveis e confirmou uma tendência que já era suspeitada: o crescimento contínuo de picapes e SUVs em termos de tamanho, peso e altura transformou as ruas em locais mais perigosos para pedestres.
O estudo revela que, se os veículos mantivessem as dimensões de 25 anos atrás, entre 200 e 400 vidas de pedestres poderiam ser salvas anualmente, o que corresponde a cerca de 10% do aumento recente nas fatalidades. O fenômeno é datado e remonta ao boom das picapes e SUVs que começou nos anos 1990, foi interrompido pela crise financeira de 2008 e se intensificou logo após, impulsionado por mudanças regulatórias e programas como o Cash for Clunkers, que retirou quase 700 mil veículos usados do mercado, incentivando a compra de modelos novos.
A administração de Barack Obama introduziu o chamado “modelo de pegada”, que passou a classificar os automóveis com base em critérios físicos, como suas dimensões e tamanho dos pneus. Essa regra permitiu que as montadoras emitissem mais poluentes, desde que os carros fossem maiores. O resultado foi a ascensão dos SUVs e crossovers, que rapidamente se tornaram os preferidos entre os motoristas, substituindo os sedãs médios como o carro de família típico nos EUA.
Do ponto de vista físico, o perigo se torna multifatorial. Embora espalhar o impacto por uma área maior poderia, em teoria, reduzir a força sobre cada parte do corpo, esse benefício é anulado pelo aumento da massa dos veículos. Além disso, a altura dos SUVs e picapes é um agravante significativo. Em um sedã baixo, o impacto tende a atingir as pernas do pedestre; em contrapartida, com picapes e SUVs, o impacto ocorre na parte superior do corpo, arremessando o pedestre para frente do veículo, o que é consideravelmente mais letal devido à baixa visibilidade desses modelos.
Pesquisas conduzidas pela empresa Forensic Rock durante testes de colisão evidenciaram a gravidade dos acidentes, mesmo em baixas velocidades, onde a vítima pode acabar debaixo das rodas antes que o motorista perceba o atropelamento. Além disso, os grandes pontos cegos gerados pelos para-choques altos contribuem para o aumento do risco. Embora os avanços em pneus e sistemas de segurança tenham proporcionado maior controle aos motoristas de veículos mais pesados, esse ganho não se estende aos pedestres. A Europa já exige há anos que os veículos sejam projetados com segurança para pedestres, enquanto nos Estados Unidos o tema começa apenas agora a ganhar atenção entre os reguladores.





