Baixa Saxônia pode transferir parte da fábrica de Osnabrück e aportar €200 milhões para joint venture com a israelense Rafael. A assinatura pode sair em setembro e retiraria a VW da linha de frente.
A Volkswagen e o estado da Baixa Saxônia estão negociando uma manobra societária que poderá destravar a conversão da fábrica de Osnabrück para produção de equipamentos de apoio ao sistema de defesa aérea Iron Dome. A alternativa em estudo prevê transferir parte da unidade fabril para o estado, que então formaria uma joint venture com a israelense Rafael Advanced Defense Systems, removendo a montadora da linha de frente da parceria industrial.
Segundo as informações sobre as conversas, o estado colocaria cerca de 200 milhões de euros na operação e a assinatura poderia sair já em setembro. Não há acordo fechado, e as conversas continuam entre as partes envolvidas.
O impasse envolve a presença do Qatar Investment Authority no capital da Volkswagen: o fundo detém 10,4% do capital, 17% dos direitos de voto e dois assentos no conselho de supervisão, ficando atrás apenas da Porsche SE e da própria Baixa Saxônia. Relatos indicam que, em junho, o fundo levantou objeções às negociações motivadas pela relação diplomática entre Doha e Israel, e não por cálculo estritamente financeiro. Sozinho, o Qatar não conseguiria vetar o projeto, mas tem poder para atrasá-lo e cobrar concessões.
A fábrica de Osnabrück emprega cerca de 2.300 pessoas e perderá seu único produto em 2027, quando terminar a produção do T‑Roc Cabrio. Meses de busca por um substituto não renderam alternativas viáveis, e em abril a Volkswagen assinou uma carta de intenções com a Rafael para ocupar o espaço fabril. O plano prevê que a planta passe a fabricar equipamentos de apoio ao Iron Dome, como caminhões pesados para transporte de mísseis, lançadores e geradores de energia; os mísseis interceptadores continuariam a ser produzidos em Israel e nos Estados Unidos.
Para a Baixa Saxônia, que controla 20% dos direitos de voto da montadora, o cálculo é tanto político quanto industrial: sem um novo projeto a fábrica continuará gerando custos de pessoal, energia, manutenção e infraestrutura após a paralisação das linhas. O primeiro‑ministro do estado, Olaf Lies, que ocupa cadeira no conselho de supervisão da Volkswagen, afirmou que avalia como participar de uma solução industrial de longo prazo para o local.
O movimento se alinha à estratégia do presidente do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, de identificar parceiros e novos usos para fábricas sem produção automotiva competitiva, uma agenda que Blume confirmou publicamente em agosto durante reuniões com trabalhadores sobre a reestruturação da empresa.
A proposta não é consensual em Osnabrück. A cidade tem tradição pacifista e ativistas, além de partidos de esquerda, protestam contra a conversão, argumentando que a Volkswagen deveria manter-se como fabricante exclusivamente civil. A resistência ganhou força ao se saber que a parceira seria uma estatal israelense.
Volkswagen e Rafael não comentaram os desenvolvimentos mais recentes. A Baixa Saxônia confirmou apenas que estuda formas de participar de uma eventual solução para a continuidade industrial da fábrica.





