Pesquisas recentes ligam o ruído do tráfego a problemas como depressão, ansiedade e aumento do colesterol. Especialistas pedem políticas públicas e medidas para reduzir a exposição sonora nas cidades.
O intenso fluxo de tráfego e os congestionamentos urbanos têm sido amplamente discutidos em busca de soluções para melhorar a mobilidade nas grandes cidades. No entanto, um aspecto frequentemente negligenciado é o impacto do barulho do trânsito na saúde humana.
O ruído contínuo gerado por carros, motocicletas, ônibus e caminhões é comumente visto como um incômodo inevitável, mas um conjunto de estudos recentes evidencia que ele representa um risco significativo para a saúde física e mental. Esse tipo de poluição sonora está associado a problemas como depressão, ansiedade, alterações nos níveis de colesterol e até um maior risco de diagnóstico da doença de Parkinson.
Pesquisas publicadas em periódicos renomados, como Environmental Research e JAMA Neurology, indicam que o barulho do trânsito age como um estressor biológico que pode desregular o organismo humano.
Uma pesquisa da Universidade de Oulu, na Finlândia, acompanhou 114.353 jovens residentes na área metropolitana de Helsinque durante até dez anos. O estudo revelou que a exposição a níveis de ruído que ultrapassam os 53 decibéis, limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aumenta a probabilidade de desenvolvimento de problemas psicológicos entre os jovens.
Os resultados mostraram que o risco de ansiedade é menor quando os níveis de ruído estão entre 45 e 50 dB, mas aumenta drasticamente ao ultrapassar a faixa de 53 a 55 dB. Além disso, a pesquisa destacou que a vulnerabilidade à ansiedade é maior entre homens e jovens cujos pais não têm histórico de problemas de saúde mental.
Os efeitos do ruído do trânsito não se limitam à saúde mental, mas também afetam a saúde cardiovascular e metabólica. Outro estudo da Universidade de Oulu, focado no ruído noturno, analisou dados de mais de 200 mil adultos na Europa e concluiu que a poluição sonora pode elevar os níveis de colesterol no sangue e metabólitos relacionados ao acúmulo de gordura, aumentando o risco de diabetes tipo 2 e hipertensão arterial.
A exposição prolongada a ruídos noturnos acima de 50 dB está associada a um aumento nos níveis de colesterol total e LDL, além de maior predisposição a doenças cardiometabólicas. A OMS recomenda que o ruído noturno não ultrapasse 45 dB, enfatizando que o impacto do barulho é sutil, mas consistente nos marcadores biológicos do corpo.
Adicionalmente, um estudo de larga escala publicado no JAMA Neurology, que acompanhou mais de 3 milhões de adultos na Dinamarca, revelou uma associação entre a exposição prolongada ao barulho do tráfego e um aumento no risco de diagnóstico da doença de Parkinson. O aumento de 11 dB na fachada da casa mais exposta ao tráfego foi associado a um incremento de 3% no risco da doença.
Embora as pesquisas indiquem uma correlação, é importante ressaltar que esses estudos são observacionais e não estabelecem uma relação causal direta entre o ruído do trânsito e a doença de Parkinson.
Os pesquisadores apontam que o ruído de tráfego afeta o organismo através de mecanismos como a privação do sono, estresse crônico e processos inflamatórios. Para mitigar esses efeitos negativos, especialistas sugerem que urbanistas e autoridades implementem medidas como a ampliação de áreas verdes e a adoção de projetos arquitetônicos que ajudem a reduzir a poluição sonora nas cidades.





