Testamos a Transalp na descida da Serra do Rio do Rastro e em dez dias de uso real, incluindo trânsito e rotinas da cidade. Resultado: domina estradas e viagens, mas sente-se limitada no uso urbano.
O primeiro contato com a Honda XL750 Transalp foi na descida da Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, cenário que favorece qualquer trail média/grande. Agora, depois de dez dias com a moto no uso real, incluindo trânsito urbano e deslocamentos de rotina, as impressões ganham contorno: a Transalp tem endereço certo, e ele passa por estrada e viagem.
O modelo voltou ao mercado com estilo mais imponente que a antiga 700, adotando um conjunto estético que agrada inclusive em situações fora do asfalto. Diferentemente da nova CB 750 Hornet, muito criticada por abandonar os quatro cilindros, a Transalp preserva a proposta aventureira e se beneficia da entrega do bicilíndrico para quem roda em terra leve.
O motor exige giro, mas entrega. Mesmo com a mesma base da CB 750 Hornet — bicilíndrico de 755 cm³, 69,3 cv e 7,04 kgf.m — a Transalp tem comportamento distinto. A aceleração é mais suave nas baixas rotações e, perto dos 7.000 rpm, o motor acentua sua capacidade, oferecendo salto de velocidade e força. A recomendação, na prática, é trabalhar com o motor um pouco mais cheio, evitando a falta de força nas rotações baixas, especialmente em marchas mais altas. Ainda assim, essa característica não compromete a segurança em estrada.
É em velocidades um pouco mais altas, na estrada e em passeio, que o conjunto se mostra no seu melhor: o tamanho deixa de ser estorvo e o motor passa a trabalhar na faixa ideal. A ciclística segue sendo o principal trunfo da Transalp. A ergonomia agrada desde os primeiros quilômetros e, apesar das dimensões entre as intermediárias e as grandes, a moto não parece exagerada em movimento. Fazer curvas não é desafio, mesmo com roda dianteira de 21 polegadas e traseira de 18 polegadas, e cursos de suspensão de 200 mm na frente e 190 mm atrás, que transmitem sensação de domínio.
Fora do asfalto, o conjunto se sai bem em trilhas mais tranquilas; não é uma moto do nível de uma CRF voltada ao off-road, mas encara trechos acidentados com competência. A eletrônica contribui: entre os seis modos de pilotagem, o modo Gravel (terra) e os personalizáveis User 1 e User 2 permitem, inclusive, desligar o ABS e o controle de tração (HSTC).
O pacote tecnológico corresponde ao patamar: iluminação full LED, painel TFT de 5 polegadas — acessado por joystick no punho esquerdo — e assistentes de condução que podem ser ajustados. O ABS amplia a segurança nas frenagens e o HSTC reduz perda de aderência da roda traseira, ambos com possibilidade de desligamento nos modos citados. A falha está na ausência de conectividade com smartphones na América do Sul, recurso que o mesmo painel já oferece na Europa; além disso, a porta USB está posicionada sob o banco do garupa, exigindo retirar o estofado para conectividade de dispositivos.
O calor nas pernas é o ponto que mais incomoda: em baixa velocidade e com temperaturas altas, a falta de fluxo de ar faz o motor aquecer a região das pernas do piloto e do garupa. Em viagem e em dias frios o vento ajuda a arrefecer o conjunto, minimizando o incômodo. Há também um pequeno desconforto ao apoiar a perna esquerda em parada: a carenagem abaixo do banco pode ficar saltada e encostar no piloto.
No trânsito urbano, a Transalp apresenta apenas duas vantagens claras: a potência disponível quando exigida, útil em ultrapassagens ou saídas rápidas, e a altura do guidão, que facilita passagem por corredores ao ultrapassar carros pequenos. Contra SUVs, que têm espelhos mais altos, essa manobra perde eficácia. Fora esses pontos, a moto é pesada, grande e esquenta — cenários em que sua proposta se justifica menos.
A Transalp combina versatilidade e pontos positivos suficientes para quem prioriza estrada e viagem. O preço público sugerido é de R$ 65.545, e nas lojas o modelo chega a R$ 70 mil. Para uso conforme a proposta da moto, a conta se sustenta; para quem enfrenta trânsito urbano diariamente, o peso, o tamanho e o calor tornam a escolha mais difícil de justificar nesse patamar de preço.










