Em comunicado sobre apoio à indústria automotiva, a Casa Branca atribuiu por engano um pacote de cerca de US$100 milhões à divisão de turbinas da Rolls‑Royce. A nota citou fábricas na Carolina do Sul e em Minnesota.
Em comunicado oficial divulgado recentemente para celebrar medidas de fortalecimento da indústria automotiva nacional, o governo dos Estados Unidos cometeu um equívoco ao atribuir um pacote de investimentos de aproximadamente US$100 milhões à Rolls‑Royce como se tratasse de aporte para fabricação de motores veiculares. A nota citou injeções financeiras em fábricas localizadas na Carolina do Sul e em Minnesota para a suposta produção de propulsores automotivos.
O problema é que a divisão mencionada não tem relação com a fabricação de automóveis de luxo ou com os V12 usados em modelos como Phantom e Ghost, cuja montagem está sob responsabilidade da BMW no Reino Unido. Os aportes referem‑se, na verdade, à Rolls‑Royce Holdings plc e à sua subsidiária de sistemas de energia MTU, especializadas no desenvolvimento de motores diesel de grande porte voltados para aplicações marítimas, locomotivas e geradores estacionários de alta capacidade, adequados para centros de dados e instalações críticas.
Do ponto de vista industrial, trata‑se de ramos distintos: um voltado a turbinas, motores industriais e soluções de energia; o outro dedicado a automóveis de luxo, com engenharia, cadeia de suprimentos e requisitos regulatórios diferentes. A confusão institucional em torno da natureza dos investimentos ressalta a importância do detalhamento técnico ao se comunicar programas de incentivo e atração de capital para o setor automotivo.
O episódio remete a um precedente histórico de 1998 envolvendo a Volkswagen e a marca Rolls‑Royce. Na ocasião, a Volkswagen desembolsou quase US$1 bilhão acreditando ter adquirido a totalidade da tradicional marca britânica, mas descobriu que os direitos sobre o nome comercial pertenciam a outra empresa vinculada ao setor aeroespacial e de defesa. Ao disputar a aquisição da Vickers PLC, a Volkswagen elevou a oferta para cerca de US$780 milhões e venceu a BMW na disputa pela compra da Vickers, que detinha Bentley e a fábrica de Crewe, mas não os direitos completos sobre a marca Rolls‑Royce automotiva.
Enquanto isso, a BMW já havia adquirido por US$70 milhões os direitos de uso do nome Rolls‑Royce em automóveis. Depois de negociações, ficou acordado que a Volkswagen ficaria com a Bentley e a fábrica de Crewe, e a BMW obteria o direito de produzir Rolls‑Royce a partir de 2003, além da estatueta Spirit of Ecstasy. Para viabilizar a operação, a BMW construiu uma nova fábrica em Goodwood e firmou um acordo para receber motores da Volkswagen durante cinco anos.
Apesar do custo financeiro e da complexidade da negociação, a Volkswagen modernizou Crewe e investiu no desenvolvimento da Bentley, que se consolidou como uma das principais marcas de luxo. A Rolls‑Royce seguiu sob a alçada da BMW, numa reviravolta que transformou a disputa por marcas e direitos em um dos episódios mais notórios de erro estratégico e jurídico no setor automotivo.
Boris Feldman relembra essa história. Veja o vídeo:





