Mulheres representam 10,61% dos motoristas por aplicativo no Brasil, mostra levantamento da Machine. A participação caiu de 11,53% em 2024 para 10,61% em 2026, mesmo com plataformas ampliando serviços para passageiras.
As mulheres representam 10,61% dos motoristas de transporte por aplicativo no Brasil, e a fatia vem encolhendo justamente no momento em que as plataformas ampliam serviços voltados às passageiras. Os dados constam de um levantamento da Machine, empresa de tecnologia que fornece sistemas para operadoras de mobilidade e entregas, baseado em corridas e entregas registradas em 2024, 2025 e 2026.
O índice passou de 11,53% em 2024 para 11,21% em 2025 e chegou a 10,61% neste ano. A queda é pequena, mas ocorre sobre uma base que já era baixa: pouco mais de uma em cada dez pessoas ao volante é mulher. No segmento de delivery, a participação feminina seguiu trajetória semelhante, com alta de 5,55% para 5,85% entre 2024 e 2025 e recuo para 5,76% em 2026. Na prática, menos de uma em cada 17 entregadoras por aplicativo é mulher.
Os números revelam um descompasso entre demanda e oferta nas soluções que priorizam motoristas mulheres. O tema voltou ao debate com a expansão nacional do Uber Mulher, recurso antes testado em algumas capitais que aumenta as chances de a corrida ser atendida por uma motorista. A 99 e a BlaBlaCar também oferecem ferramentas voltadas à segurança feminina, como identificação do motorista, compartilhamento da viagem em tempo real e canais de denúncia.
Há demanda potencial entre as usuárias, mas a oferta de profissionais disponíveis para atendê‑la continua reduzida. Sem ampliar a presença feminina na outra ponta da operação, um filtro ou uma categoria exclusiva tem alcance restrito e limita a efetividade da estratégia do ponto de vista operacional.
Para Júlia Camossa, estatística responsável pelo Data Machine, os dados não indicam uma expansão gradual da presença feminina, e sim uma espécie de teto estrutural, em que as variações anuais não chegam a alterar a composição do mercado. Segundo ela, o obstáculo não está apenas na entrada na atividade, mas em fatores como permanência, condições de trabalho, risco ocupacional e a organização do próprio trabalho, que pesam de forma desigual sobre as mulheres.
O pano de fundo ajuda a explicar por que a segurança deixou de ser um diferencial e passou a influenciar a escolha da plataforma: o Brasil registrou 1.470 feminicídios em 2025, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Pesquisa deste ano do Instituto Cidades Sustentáveis aponta ainda que sete em cada dez mulheres moradoras das grandes capitais afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio. O transporte por aplicativo não explica esses números, mas é um dos espaços cotidianos em que a percepção de vulnerabilidade aparece — tanto para quem viaja no banco de trás quanto para quem trabalha ao volante.
Do ponto de vista do mercado de mobilidade, a persistência dessas taxas coloca desafios técnicos e de produto: como escalar categorias direcionadas a passageiras sem comprometer tempo de espera, disponibilidade e segurança; e como ajustar políticas de retenção e condições de trabalho para ampliar a oferta feminina. Até que essas questões estruturais sejam endereçadas, a presença das mulheres na base de motoristas e entregadoras tende a continuar restrita, limitando o alcance prático das soluções pensadas especificamente para usuárias.





