Levantamento da ABVE (jan/2022 a set/2026) cruzado com dados do IBGE mostra alto número de elétricos em Brasília e quase ausência nos municípios goianos do Entorno. A discrepância sugere práticas fiscais atípicas.
De um lado da divisa, Brasília concentra a maior densidade de carros elétricos e híbridos do país. Do outro, os municípios goianos do Entorno do Distrito Federal exibem índices praticamente inexistentes desses modelos — um descompasso que aponta para práticas fiscais atípicas.
Um levantamento que cruzou os emplacamentos registrados pela ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), no período de janeiro de 2022 a setembro de 2026, com a população estimada pelo IBGE, revela a disparidade.
As oito maiores cidades goianas do Entorno, de Águas Lindas de Goiás a Formosa, somam 1,2 milhão de moradores e contabilizam apenas 57 veículos eletrificados (100% elétricos e híbridos). Esse total corresponde a menos de 5 por 100 mil habitantes. No Distrito Federal, o índice é de 2.539 por 100 mil — mais de 500 vezes superior.
Alguns exemplos ilustram a anomalia: Santo Antônio do Descoberto, com cerca de 76 mil moradores, não emplacou nenhum veículo eletrificado; Cidade Ocidental, com 104 mil habitantes, emplacou apenas um.
Para isolar efeitos de renda e outras variáveis socioeconômicas, o levantamento compara o Entorno com a Grande Goiânia. Municípios-dormitório do mesmo estado que não fazem divisa com o DF apresentam índices muito superiores: Aparecida de Goiânia registra 291 eletrificados por 100 mil habitantes; Senador Canedo, 344; Trindade, 250. Somadas, as cidades goianas com mais de 50 mil habitantes fora do Entorno (exceto Goiânia) chegam a 425 por 100 mil — quase cem vezes o índice dos vizinhos de Brasília.
O principal fator que cria o incentivo ao registro fora do município de residência é fiscal. Desde 2019 o Distrito Federal zera o IPVA para carros elétricos e híbridos, benefício que vale até o fim de 2027. É a única unidade federativa que isenta todos esses modelos sem limite de valor; Goiás não concede isenção similar.
O atalho fiscal motivou uma investigação estadual. A Secretaria da Economia de Goiás e a Polícia Civil deflagraram, em agosto de 2024, a Operação Quíron, voltada a proprietários que residem no estado, mas registravam veículos em outros endereços, em muitos casos no DF, com informações de parentes ou cadastros inexatos.
Na primeira fase da operação eram cerca de 500 proprietários; 99% dos casos estavam ligados ao DF, segundo a polícia. Em abril de 2025 o estado já havia recuperado mais de R$ 3 milhões. Em setembro de 2025 havia cerca de 700 donos notificados e um prejuízo estimado em R$ 10 milhões. Uma nova fase, anunciada em outubro de 2025, mirou 172 carros comprados fora de Goiás, a maioria no DF.
Quem for autuado paga multa de 100% sobre o valor do imposto, a diferença de ICMS e pode responder por crime contra a ordem tributária, com pena de até dois anos de detenção. As autoridades não divulgaram em quais cidades moram os investigados.
Enquanto isso, a isenção do IPVA no Distrito Federal segue valendo, e um projeto na Câmara Legislativa do DF pretende estendê-la até 2030, o que manterá o fator de atração enquanto vigorar.






