Na Ilha do Marajó, búfalos permitem à PM patrulhar áreas alagadas onde carros e cavalos não chegam. A bubalinocultura, presente há décadas, também é base da economia local.
A presença de cerca de 500 mil búfalos na Ilha do Marajó, no Pará, continua a definir parte da logística de patrulhamento rural e a economia local. A bubalinocultura é fonte de carne, queijo, couro e renda para a população — estimada em 600 mil habitantes — e, desde 1992, os animais também são empregados pela Polícia Militar como meio de locomoção em áreas alagadas e pantanosas.
O uso dos búfalos pela corporação surgiu como solução de baixo custo para acessar trechos onde veículos e cavalos têm desempenho limitado. Em função do porte — animais que podem atingir 700 kg — e da capacidade de transposição e natação, os búfalos conseguem operar em lamaçais e terrenos inundados onde motos e cavalos não avançam.
“tinha apenas uma Kombi”
O processo de transformação de um animal em plataforma de patrulha exige treinamento específico: o adestramento começa ainda filhote e, segundo tratadores, pode levar até um ano para que o búfalo aceite montar e siga comandos. A afinidade entre animal e tratador é elevada, de modo que os búfalos costumam responder preferencialmente às pessoas que os socializaram. As selas e os equipamentos de montaria diferem dos usados em cavalos; as rédeas chegam a ser fixadas em argola no septo nasal do animal.
Dados técnicos compilados por instituições de pesquisa indicam que, em regime de trabalho, um búfalo se desloca a cerca de 6 km/h e percorre entre 10 km e 20 km por dia, desempenho compatível com patrulhas em zonas rurais isoladas. Na prática policial, os búfalos atuam sobretudo fora das áreas urbanas, com foco em ocorrências como abigeato — furto e roubo de gado —, mais recorrente em propriedades isoladas.
Nos últimos anos, contudo, a tecnologia tem reconfigurado a resposta operacional da PM no Marajó. A corporação modernizou sua frota: além das montarias, o Comando de Policiamento Regional XI recebeu equipamentos rodoviários com preparo off-road, incluindo três Renault Duster e 20 Toyota Hilux entregues em 2024. Ao mesmo tempo, a adoção de drones passou a compor a chamada Patrulha Rural georreferenciada.
O programa de monitoramento, implementado no início de 2025, cadastra propriedades com coordenadas de GPS e integra uma central de controle. Em ocorrências, o drone é frequentemente o primeiro recurso a chegar ao local, fornecendo visão aérea e dados para orientar a resposta imediata da equipe de solo. Entre os exemplares mantidos para interação com turistas estão búfalos usados como atrativos nas manhãs de desembarque, mas apenas cerca de cinco animais permanecem em uso ativo pela PM, metade do efetivo de 15 anos atrás.
“Nossos policiais estavam precisando desse conhecimento específico para poderem dar uma resposta melhor nas missões preventivas e reativas. Com o uso dos drones, vamos ter mais controle das áreas urbana, rural e fluvial”
Além dos drones, houve doação de kits com drone, tablet e GPS para a Patrulha Rural, ampliando a capacidade de georreferenciamento e coordenação entre viaturas, montarias e apoio aéreo. A combinação entre tecnologia e práticas tradicionais tem redesenhado a operação no arquipélago: os búfalos mantêm papel tático em trechos inacessíveis, enquanto drones e viaturas 4×4 aumentam a cobertura e a velocidade de resposta.







