Apresentado por Fábio Bonilha na ETRI da USP, o projeto quer estruturar no Brasil uma cadeia que recupere materiais de veículos ao fim da vida útil. Hoje, a taxa de reciclagem brasileira é inferior a 3%, ante 30-40% nos EUA.
A Hyundai apresentou um projeto para estruturar no Brasil uma cadeia de reciclagem de veículos que transforme carros ao fim da vida útil em matéria‑prima para modelos novos. A iniciativa foi detalhada por Fábio Bonilha, gerente sênior de ESG e Inovação da Hyundai para as Américas Central e do Sul, na quinta‑feira (5), durante a Conferência de Pesquisa e Inovação em Transição Energética (ETRI) na Universidade de São Paulo (USP).
Segundo Bonilha, a taxa de reciclagem veicular no Brasil é inferior a 3%, enquanto os Estados Unidos recuperam entre 30% e 40% dos materiais. A comparação também colocou em destaque modelos de recuperação distintos: no mercado norte‑americano a prática comum é a trituração dos veículos para recuperar materiais, ao passo que Japão e Coreia do Sul têm políticas e operações que reintegram componentes e estruturas diretamente aos fabricantes.
A principal referência técnica citada pela Hyundai é o projeto Car to Car, que recupera plásticos, aço, alumínio, baterias e motores de carros descartados para reintroduzi‑los na produção automotiva. Na Coreia, a montadora opera um serviço em que o proprietário solicita, por meio do site, a retirada, desmontagem e reciclagem do veículo — um fluxo integrado de logística reversa e reaproveitamento de componentes.
Para aplicar o conceito no Brasil, a montadora apontou a necessidade de parceiros capazes de reciclar em escala industrial, além de sistemas de recuperação de veículos e de rastreabilidade de peças. A proposta também tem como objetivo reforçar o fornecimento local de matérias‑primas, diminuindo a exposição da cadeia produtiva a tensões geopolíticas, barreiras comerciais e problemas logísticos no transporte internacional.
O projeto foi apresentado em meio às discussões sobre políticas públicas do setor: o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover) foi citado como instrumento que pode articular exigências ambientais e incentivos à tecnologia. O programa prevê que, a partir de 2027, carros de passeio novos tenham ao menos 80% de sua massa reciclável ou reutilizável, meta que influencia requisitos de projeto e seleção de materiais.
Como exemplo prático, a Hyundai expôs no evento o NEXO, SUV movido a célula de combustível de hidrogênio que incorpora plásticos reciclados, tecidos feitos de PET reciclado e materiais de origem biológica. Bonilha também ressaltou a estratégia de reaproveitamento de baterias de veículos elétricos, que podem receber uma segunda vida armazenando energia em sistemas estacionários antes de serem encaminhadas para recuperação de minerais.
O plano apresentado combina soluções tecnológicas, logística reversa e políticas públicas como pilares para reduzir a pegada de carbono da indústria automotiva e ampliar a circularidade de materiais no setor.





