NOVA YORK, 9 de outubro de 2025 – O novo plano de pagamentos aprovado pelo conselho da Tesla pode render dezenas de bilhões de dólares a Elon Musk mesmo que várias metas extremamente ambiciosas previstas para os próximos dez anos não sejam alcançadas, indica análise da agência Reuters.
Em setembro, os diretores da montadora concederam ao executivo o maior pacote de remuneração da história corporativa: até US$ 878 bilhões em ações ao longo de uma década. O documento prevê que Musk receba 1% dos papéis da empresa a cada meta de desempenho atingida, desde que o valor de mercado avance para faixas entre US$ 2 trilhões e US$ 8,5 trilhões.
Metas fáceis garantem pagamentos altos
Especialistas em remuneração, avaliação de empresas, robótica e mercado automotivo ouvidos pela Reuters apontam que algumas metas são consideradas simples. Se Musk alcançar apenas duas das tarefas menos complexas — e a capitalização da Tesla atingir US$ 2,5 trilhões — ele já teria direito a US$ 26,4 bilhões em ações, valor superior à remuneração vitalícia somada dos oito CEOs mais bem pagos dos Estados Unidos, segundo a consultoria Equilar.
Cumprir três metas básicas e levar o valor de mercado a US$ 3 trilhões elevaria o ganho para US$ 54,6 bilhões. Mais de US$ 50 bilhões podem ser liberados sem que a empresa entregue produtos transformadores ou lucros expressivos.
Vendas de veículos e assinaturas de software
Um dos objetivos considerados acessíveis estabelece média de 1,2 milhão de carros vendidos por ano na próxima década. Caso alcance esse volume — meio milhão a menos do que foi comercializado em 2024 — e o valor de mercado suba de US$ 1,4 trilhão para US$ 2 trilhões até 2035, Musk recebe US$ 8,2 bilhões em ações.
Outra meta prevê 10 milhões de assinaturas do sistema de assistência à condução Full Self-Driving (FSD). O contrato não exige que o software opere de forma totalmente autônoma, apenas que ofereça “condução avançada” — expressão sem padronização no setor, segundo professores de direito especializados em tecnologia automotiva. O objetivo é visto como atingível, especialmente se o preço da assinatura cair dos atuais US$ 8 mil à vista ou US$ 99 mensais; a chinesa BYD, rival da Tesla, já fornece solução semelhante sem custo.
Objetivos para robôs e robô-táxis
A proposta ainda inclui a operação comercial de 1 milhão de robô-táxis sem motorista a bordo. Quatro especialistas afirmam que a redação pode abrir brechas para veículos guiados por controle remoto ou com ocupante no banco do passageiro — modelo atualmente testado em pequena escala em Austin, Texas.
Há também a exigência de 1 milhão de “robôs”. O texto define bot como “qualquer robô ou outro produto físico com mobilidade usando inteligência artificial”, o que, de acordo com analistas de robótica, permite interpretação ampla e não necessariamente limita a produção ao humanoide Optimus prometido por Musk.
Lucro: a parte mais desafiadora
Os alvos financeiros são considerados os mais difíceis. O pacote fixa oito metas de lucro variando de US$ 50 bilhões a US$ 400 bilhões em EBITDA, contra US$ 16,6 bilhões registrados em 2024. Mesmo sem atingi-las, Musk pode receber valores idênticos ao bater objetivos mais simples, já que cada meta vale o mesmo 1% em ações.
Analistas calculam que, com crescimento médio anual de 6,4% – ritmo inferior à média de 8,5% do S&P 500 nas últimas três décadas –, a Tesla já alcançaria os US$ 2 trilhões de capitalização exigidos para liberar parte da remuneração.
Condições de permanência e governança
Pelo contrato, Musk precisa continuar como executivo da Tesla por pelo menos sete anos e meio para receber qualquer parcela. Uma vez atingidas as metas, no entanto, ele passa a contar imediatamente com direito de voto correspondente às ações adquiridas.
O conselho argumenta que o bilionário é “a única pessoa capaz” de transformar a Tesla em gigante de inteligência artificial e sustenta que o pacote de ações “vale zero” caso a empresa não dobre de valor. Em sua rede social X, Musk declarou que o acordo não se trata de remuneração, mas de garantir influência suficiente sobre a companhia “caso venhamos a construir milhões de robôs”.
Especialistas em governança, por outro lado, alertam que concentrar tanto poder e recursos em um único líder representa risco elevado. Para a vice-reitora da escola de negócios da Universidade Emory, Wei Jiang, o conselho concedeu a Musk “um monopólio” sobre o cargo mais alto da montadora.
Embora parte das metas seja vista como modesta, investidores como Gene Munster, sócio da gestora Deepwater Asset Management, afirmam que o mercado continuará cobrando resultados disruptivos. “Se as pessoas perceberem que há algo errado nisso, ele estará em apuros”, disse Munster.
A Tesla não respondeu aos pedidos de comentário feitos pela Reuters.
Com informações de g1





