Jordi Molina, motorista de caminhão de lixo em Barcelona há 35 anos, compartilha sua experiência sobre a crescente hostilidade nas madrugadas da capital catalã. Em uma entrevista, ele destaca como a rotina se tornou cada vez mais desafiadora, marcada por desordem, consumo de drogas e desrespeito nas vias. Segundo Molina, a situação atual não tem paralelo com o que vivenciou em mais de três décadas de trabalho na cidade.
Herdeiro de uma tradição familiar, onde seu pai também era motorista, Molina inicia seu turno por volta das 22h, saindo da Zona Franca para prestar serviços à CLD, uma das quatro empresas responsáveis pela coleta de lixo na cidade. Entre os principais desafios enfrentados, ele menciona a falta de respeito por parte de ciclistas, usuários de patinetes elétricos e motoristas de aplicativo, que frequentemente ignoram a sinalização e o espaço de manobra necessário para o caminhão.
Este problema, segundo ele, se intensificou após a pandemia. O relato mais alarmante de Molina envolve a desordem em bairros como o Raval e o Poblenou.
“Encontro gente defecando, urinando ou fazendo sexo no meio da rua, se drogando na minha frente, e pessoas embriagadas que tentam subir no caminhão”,
descreve o motorista.
Ele relaciona parte desse comportamento à desigualdade entre os distritos da cidade, observando que, da Avenida Diagonal para baixo, há uma maior quantidade de pessoas nas ruas. Embora reconheça que essa percepção possa ser considerada “classista”, ele não deixa de apontar a realidade que observa diariamente.
Os dados de segurança em Barcelona corroboram o desconforto de Molina. De acordo com informações da Secretaria de Interior, os crimes na cidade caíram cerca de 6% em relação a 2024, mas houve um aumento significativo no tráfico de drogas (27%), nos episódios com armas brancas (23%) e nas agressões sexuais (4,4%). Uma pesquisa municipal também indica que muitos moradores se sentem mais inseguros, em função do aumento da criminalidade e da diminuição da presença policial.
A jornada de trabalho de Molina começa ao meio-dia, após apenas seis ou sete horas de sono. Ele menciona que sempre trabalhou “muito à vontade” à noite, mas que os turnos rotativos nos finais de semana são os mais desafiadores, pois
“a pessoa sai, vai muito afoita, e não dá para relaxar”.
A cada parada, com o auxílio de dois monitores e quatro câmeras, ele consegue despejar mais de 2.000 litros de lixo em questão de segundos. No entanto, a tensão constante tem afetado sua saúde, causando quadros de ansiedade. Atualmente, ele opera uma rota fixa no distrito de Les Corts e reivindica mais reconhecimento para a categoria, que considera essencial para a cidade.
“Sem nós, haveria um problema gravíssimo de ratos e doenças, mas nem todo mundo entende”,
finaliza Molina.





