Henry Ford anunciou há um século a adoção da semana de trabalho de cinco dias em suas fábricas, medida que ajudou a consolidar a jornada de 40 horas e influenciou a organização do trabalho em todo o mundo.
Em 1º de maio de 1926, o fundador da Ford Motor Company, Henry Ford (1863-1947), tornou pública a decisão de aplicar em suas unidades a jornada de cinco dias por semana, com 40 horas semanais. A mudança, que já vinha sendo testada em setores da empresa, foi defendida por Ford como compatível com a eficiência industrial e com o direito dos trabalhadores a mais tempo de lazer e convívio familiar. Antes disso, em março de 1922, Edsel Bryant Ford (1893-1943), então presidente da companhia, havia publicado no jornal The New York Times a defesa de que trabalhadores precisavam de mais de um dia por semana para descanso e recreação.
O argumento empresarial para a redução da jornada estava ancorado em ganhos de produtividade obtidos pela linha de montagem em série. Na produção do modelo Ford T, introduzida em 1913, o tempo médio para montar um automóvel caiu de 12 horas para pouco mais de 1h30. HORÁRIO: 1h30 (Brasília UTC-3). Ford considerava que parte desses ganhos deveria se traduzir em melhores salários e mais tempo livre para os operários, o que também estimularia o consumo de massa.
Nos Estados Unidos, a transformação legal da jornada avançou nas décadas seguintes: em 1938 a lei federal limitou a semana de trabalho a 44 horas e, em 1940, o teto passou a 40 horas semanais. Após a Segunda Guerra Mundial, o modelo de organização do trabalho inspirado na Ford se difundiu internacionalmente, especialmente entre países envolvidos na reconstrução econômica, como Japão e China.
Historiadores e especialistas consultados situam a adoção do 5×2 tanto na racionalização científica do trabalho quanto na estratégia de ampliar o mercado consumidor. Paulo Henrique Martinez, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), aponta que o modelo fordista combinou disciplina fabril e estímulo ao consumo de bens produzidos em massa. O advogado trabalhista Pedro Maciel destaca que a eficácia econômica do sistema convenceu concorrentes a adotá-lo.
Também houve antecedentes isolados antes de Ford: uma fábrica têxtil dos Estados Unidos havia instituído a semana de cinco dias em 1908 para acomodar trabalhadores judeus que observavam o sábado. Para o professor Claudinor Roberto Barbiero, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a ação da Ford deu escala industrial e prestígio à prática, tornando-a uma estratégia de gestão.
No Brasil, limites à jornada foram regulados apenas nos anos 1930: decretos de março e maio de 1932 estabeleceram a jornada de oito horas diárias por seis dias por semana, durante o governo de Getúlio Vargas. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943 reforçou esses limites e, seis anos depois, outra norma passou a assegurar o descanso semanal remunerado. Durante a elaboração da Constituição de 1988 houve propostas para fixar 40 horas como jornada máxima, mas prevaleceram 44 horas semanais no texto constitucional, com compensações previstas para horas extras e trabalho noturno, conforme analisa Martinez.
Especialistas ressaltam que a adoção do fim de semana de dois dias no Brasil foi gradual e nem sempre universal: em muitos casos a distribuição das 44 horas semanais continuou a incluir trabalho no sábado; em outros setores, especialmente administrativos e industriais mais estruturados, consolidou-se a rotina de segunda a sexta com 40 horas semanais.
O caso Ford exemplifica como decisões empresariais ligadas à organização do trabalho, à remuneração e à produção em massa moldaram padrões laborais que se tornaram referência ao longo do século XX.
Com informações de G1





