Mais de 23 milhões de veículos nos EUA foram convocados para recall desde janeiro, quase o dobro de 2025. O setor pode passar o recorde de 31,3 milhões, mesmo com a melhora na qualidade inicial, diz J.D. Power.
Mais de 23 milhões de veículos foram convocados para recall nos Estados Unidos desde o início de 2026. O volume é aproximadamente o dobro do registrado no mesmo período de 2025 e coloca o setor no caminho para superar o recorde anual de 31,3 milhões de unidades, estabelecido no ano passado.
O crescimento ocorre em um momento de melhora nos indicadores de qualidade dos carros novos. O Estudo de Qualidade Inicial (IQS), da J.D. Power, divulgado em junho, apontou a maior evolução anual da indústria desde 1997, pesquisa que considera problemas relatados pelos consumidores nos primeiros 90 dias de uso.
O movimento não é exclusividade americana. Um levantamento mensal da autoridade reguladora chinesa que consolida dez mercados registrou, em novembro de 2025, 307 campanhas envolvendo cerca de 4,3 milhões de veículos. Só na China, os recalls de veículos eletrificados cresceram 20% no primeiro semestre de 2025, atingindo 1,53 milhão de unidades. Uma montadora convocou 1,2 milhão de carros no país em uma única campanha, resolvida por atualização remota (OTA).
No Brasil, a curva é similar. Dados oficiais mostram que 999.393 veículos foram convocados entre janeiro e outubro de 2024, número que já superava o total de 2023, de 975.234 unidades. Em 2026, a Volkswagen conduziu as duas maiores campanhas do país: 117.798 carros por falha de software no painel digital, em maio, e 150.290 por defeito na alavanca do freio de estacionamento, em julho.
Especialistas ressaltam que estudos de qualidade e dados de recall medem momentos diferentes da cadeia de produção e uso. Para Paul Waati, diretor de análise da indústria da AutoPacific:
“indicadores antecedentes”
Waati explica que índices de qualidade tendem a refletir problemas emergentes em veículos novos, enquanto os recalls frequentemente tratam de modelos produzidos anos antes, o que gera o descompasso observado entre melhora nas pesquisas de qualidade e aumento no número de campanhas.
A Ford ilustra esse contraste: depois de anos entre as piores colocadas — era a 15ª marca de volume no IQS há dois anos —, a montadora aparece agora atrás apenas de Porsche e Genesis. Ao mesmo tempo, acumula cerca de 10,3 milhões de veículos em recalls em 2026 e pode superar o recorde anual de 13,6 milhões, estabelecido pela General Motors em 2014.
Estudos acadêmicos já identificaram padrão semelhante: uma análise publicada na revista Omega sobre 23,1 milhões de veículos emplacados no Reino Unido entre 1992 e 2002 mostrou aumento na frequência das campanhas sem corresponder a piora na confiabilidade percebida.
O compartilhamento de plataformas e componentes amplia o alcance de uma falha: os airbags da Takata levaram 42 milhões de veículos de 34 marcas e 19 montadoras a recall nos Estados Unidos; um motor V6 defeituoso equipou a picape Tundra e os SUVs Lexus LX e GX; no caso brasileiro da Volkswagen, seis modelos convocados compartilham a arquitetura MQB-A0, o que explica o volume atingido.
Além das falhas mecânicas e riscos de incêndio, crescem os problemas de software à medida que os carros acumulam milhões de linhas de código. Em muitos casos, a correção dispensa a oficina e é feita por atualização remota, recurso presente na maioria dos lançamentos atuais.
Segundo Frank Hanley, diretor sênior de benchmarking automotivo da J.D. Power, as fabricantes passaram a antecipar chamados, corrigindo defeitos antes que o consumidor os perceba, o que reduz a probabilidade de registro em pesquisas como o IQS. Pesquisa publicada no Journal of Marketing, com 381 investigações de recall entre 1999 e 2012, mostrou que marcas com reputação consolidada de confiabilidade tendem a anunciar convocação mais rapidamente, mesmo em falhas graves.
O custo financeiro dos recalls é elevado: a Ford informou ter gasto cerca de US$ 10 bilhões, ou aproximadamente R$ 51,8 bilhões pelo câmbio de quinta-feira (20), com garantias e reparos ligados a recalls no ano passado. No Brasil, há um estoque de 3,8 milhões de veículos circulando sem o reparo, equivalente a um em cada cinco convocados desde 2011, segundo dados oficiais.





