Carros modernos monitoram rotas, contatos e hábitos de direção. As montadoras têm acesso a informações detalhadas dos motoristas, muitas vezes sem consentimento claro.
A cada nova geração de veículos, as montadoras implementam inovações tecnológicas que elevam o nível de conforto, segurança e entretenimento. Esses avanços, que incluem funcionalidades de navegação e detecção de problemas, tornam os automóveis cada vez mais personalizáveis, mas isso depende, em grande parte, da coleta e armazenamento de dados sobre os usuários.
Um questionamento pertinente surge: até que ponto a fabricante do seu carro tem acesso às suas informações pessoais? Dados como hábitos de condução, locais que você frequenta, lista de contatos e até histórico de chamadas podem ser monitorados por meio das tecnologias embarcadas no veículo.
Conforme explica Flavio Sakai, da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), os automóveis conectados utilizam diversas formas para capturar e armazenar dados dos motoristas. As informações podem ser obtidas através da conectividade com smartphones ou pelo registro de atividades realizadas dentro do veículo.
Entre as tecnologias disponíveis, destacam-se:
- Bluetooth: Presente na maioria dos veículos conectados, permite o acesso a telefone, contatos e histórico de chamadas. Esses dados ficam armazenados na memória do sistema, embora não sejam facilmente acessíveis.
- Android Auto/Apple CarPlay: Essa função de espelhamento de celular tem uma transferência menor de dados, mas ainda pode registrar algumas informações via Bluetooth.
- Dados de navegação no GPS: Informações como endereços e históricos de navegação são armazenadas caso o condutor utilize o GPS nativo do veículo.
- Aplicativos da multimídia: Armazenam dados de históricos de compras, locais visitados e serviços utilizados em aplicativos que operam offline.
- Reconhecimento facial ou de voz: Utilizado para funções de segurança e personalização.
O engenheiro Mithermayer Menabo, especialista em conectividade da SAE BRASIL, complementa que veículos mais avançados também conseguem armazenar informações como identidade do usuário, preferências pessoais e dados operacionais como velocidade e consumo de combustível.
A coleta de dados ocorre através de uma arquitetura distribuída que inclui Unidades de Controle Eletrônico (ECUs) e Unidades de Controle Telemático (TCUs), que gerenciam a comunicação externa e o sistema de infotenimento. O fluxo de dados é processado a partir de sensores que capturam informações, que, posteriormente, são armazenadas em nuvens da montadora ou de empresas parceiras.
Mas para onde vão esses dados coletados? Embora muitos permaneçam armazenados no veículo, um número crescente de informações é enviado para as montadoras, especialmente em modelos com conectividade 5G. Este compartilhamento de dados permite funcionalidades como manutenção preditiva e atualizações OTA (Over-the-Air).
Existem dois cenários principais para a coleta de dados: veículos com contrato de serviço, onde a montadora define quais dados serão armazenados, e aqueles que operam sob um modelo de negócios que envolve desenvolvedores de aplicativos e a montadora. Sakai observa que a coleta de dados em veículos conectados é uma versão simplificada do que ocorre com smartphones, e quanto mais serviços são oferecidos, mais dados são coletados.





