Em um raro momento de autocrítica, Jim Farley, presidente da Ford, comentou sobre os resultados da empresa no Estudo de Qualidade Inicial da J.D. Power de 2026. A montadora liderou o ranking entre os fabricantes convencionais, um feito que à primeira vista poderia ser motivo de celebração. Farley expressou seu orgulho ao ver uma empresa americana superar concorrentes globais em qualidade, mas também enfatizou que ninguém dentro da Ford está satisfeito e que ainda há muito a ser feito para se tornar uma referência em todos os aspectos.
O Estudo de Qualidade Inicial da J.D. Power avalia os problemas relatados por proprietários nos primeiros 90 dias de uso. A Ford apresentou um índice de 152 problemas a cada 100 veículos, superando Nissan (156) e Buick (162) e ficando abaixo da média do setor, que é de 175. Essa marca representa a maior evolução ano a ano desde 1997, um dado que proporciona um alívio momentâneo em meio aos desafios enfrentados pela montadora.
No entanto, essa conquista contrasta com um histórico preocupante. A Ford continua sendo a líder em recalls na indústria automotiva, com 56 campanhas apenas em 2026, afetando aproximadamente 12,1 milhões de veículos — o maior volume do mercado nesse período. Em 2025, a montadora já havia estabelecido um recorde de 153 recalls, envolvendo quase 13 milhões de automóveis.
Desde que Farley assumiu a presidência em outubro de 2020, a empresa tem enfrentado prejuízos e desafios relacionados à qualidade. Em 2023, os custos com garantias resultaram em uma perda de US$ 4,8 bilhões, o maior rombo da história da Ford. No ano seguinte, a montadora aceitou pagar uma multa de US$ 165 milhões à Administração Nacional de Segurança Rodoviária dos Estados Unidos (NHTSA) por não realizar no prazo o recall de câmeras de ré defeituosas, marcando a segunda maior penalidade civil da história do órgão.
A abordagem direta de Farley não se restringe apenas aos problemas internos da Ford. O executivo também revelou ter importado um sedã elétrico da Xiaomi, o SU7, que ele conduziu por seis meses antes de devolvê-lo. Ele destacou a superioridade da tecnologia dos carros chineses em comparação com as oferecidas por fabricantes ocidentais, uma opinião incomum para o CEO de uma das maiores montadoras americanas.
Farley reafirmou que a redução do número de recalls e dos custos com garantias permanece como uma das prioridades da Ford. As mudanças implementadas desde 2023, que incluem processos de desenvolvimento mais rigorosos e maior integração entre as áreas, devem contribuir significativamente para uma redução nas campanhas de recall no futuro.






