No Irã, o preço de fábrica de R$22 mil só vale para quem é contemplado na loteria estatal; o cadastro é online e a procura é enorme. No mercado aberto, modelos similares disparam de preço e importados chegam a R$1,47 milhão.
No Irã, um carro zero-quilômetro pode custar o equivalente a R$ 22 mil, mas esse valor está restrito a quem é contemplado em uma loteria estatal de veículos. O mercado automotivo iraniano opera com duas tabelas paralelas: um preço de fábrica fixado pelo governo e uma cotação de mercado aberto substancialmente mais alta.
O preço de fábrica é mantido abaixo do mercado com o objetivo de tornar os carros acessíveis no papel. A procura por esses modelos subsidiados é tão elevada que o Estado instituiu um sorteio nacional: o cidadão se cadastra pela internet, muitas vezes antecipando recursos, e concorre ao direito de comprar pelo preço controlado. No mercado paralelo, porém, o mesmo veículo vale muito mais.
Por essa via, o Saipa Quik S — compacto de 88 cv derivado da antiga plataforma do Kia Pride — pode ser adquirido pelo equivalente a cerca de R$ 22 mil pelos sorteados. Em contraste, veículos importados tornaram-se artigo de luxo: apenas um número reduzido de empresas, muitas ligadas a estruturas estatais ou intermediários, pode trazer carros de fora, e a combinação de tarifas e impostos chega a inflar o preço final em até 200%. Um Toyota Land Cruiser VXR 2026 sai por cerca de R$ 1,47 milhão no mercado iraniano, enquanto o mesmo modelo custa em torno de R$ 440 mil nos Emirados Árabes Unidos.
Com a desvalorização da moeda local, o automóvel deixou de ser visto basicamente como bem que se deprecia e passou a funcionar também como reserva de valor, na mesma categoria de proteção contra inflação que inclui o ouro. Um exemplo acompanhado pela reportagem descreve um funcionário de escritório de renda modesta dono de um Peugeot 206 manual antigo avaliado em cerca de R$ 22,3 mil: a troca por um 207 automático custaria cerca de R$ 62,3 mil — o equivalente a mais de 20 meses de salário integral, mesmo considerando a venda do carro antigo.
Os modelos nacionais também têm preços relevantes: o sedã Shahin é oferecido por volta de R$ 69 mil e o crossover Reera passa de R$ 95,7 mil. A guerra em curso agravou a situação: relatório publicado em meados de setembro aponta que os carros nacionais subiram de 40% a 80% desde o início do conflito, e alguns modelos alcançaram mais de 130% do valor registrado em setembro de 2025.
Para efeito de comparação, o zero-quilômetro mais barato no Brasil, o Fiat Mobi Like, parte de cerca de R$ 80 mil — valor superior ao do Shahin no Irã, mas sem a necessidade de sorteio para aquisição.
O histórico industrial do país também está refletido nos produtos atuais. O Saipa Quik (lançado em 2017) usa a plataforma X200, descendente do Kia Pride de 1986, e o modelo produzido sob licença como Saipa Pride ultrapassou 7 milhões de unidades em 27 anos, tornando-se sinônimo de veículo popular. O Shahin, apresentado em 2018 como Roham e fabricado desde o fim de 2020, foi desenvolvido localmente sobre base derivada do Toyota Yaris e tem 112 cv e 18,1 kgfm. O Reera tem origem em projetos deixados por uma montadora estrangeira após 2018: transformado a partir do 2008, foi apresentado em 2022 e entrou em produção em 2024, com 162 cv e 24,5 kgfm.





